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Se você já comparou “quanto custa produzir uma arroba” no confinamento e no pasto, sabe que a resposta quase nunca é “sempre um ou sempre outro”. O que muda o jogo é a combinação de preço do boi magro, custo da dieta (milho/soja/volumoso), qualidade e custo do capim, ganho de peso, tempo até o abate, taxa de lotação, mão de obra, infraestrutura e — um detalhe que muita gente esquece — custo de oportunidade da terra.
A ideia deste guia é te dar um jeito prático de decidir: em quais cenários o confinamento “ganha” em custo/@ e em quais o pasto dá mais margem por arroba.
Primeiro: o que é “custo por arroba” na prática?
A arroba (@) é a unidade comercial mais usada na pecuária de corte. No Brasil, 1 arroba = 15 kg.
Na prática, custo por arroba produzida é:
- Custo/@ = (custo total do ciclo de engorda/terminação) ÷ (arrobas produzidas no ciclo)
E dá para separar em dois blocos:
- Custo do animal (reposição): boi magro/garrote/boitel etc.
- Custo operacional: alimentação, sanidade, mão de obra, depreciação, manutenção, energia, frete interno, impostos, perdas, juros.
No confinamento, o operacional é muito “puxado” pela dieta: a alimentação costuma representar cerca de 70% a 80% dos gastos (sem considerar o custo dos animais).
Isso explica por que o confinamento vira uma calculadora de milho/soja/volumoso + eficiência (GMD e conversão).
Confinamento: quando ele “ganha” em custo/@?
Confinamento normalmente vence quando você consegue diluir custo fixo e produzir arroba rápido, com dieta bem comprada e ganho alto.
Quando o preço da ração está “amigável” (ou você trava custo)
Como a nutrição é a maior parte do custo do confinamento, ele fica muito competitivo quando:
- Milho/derivados estão mais baratos (ou você tem produção própria/subproduto regional).
- Volumoso (silagem, feno, bagaço, polpa cítrica, DDG, casquinha etc.) entra bem no custo.
- Você consegue travar compras ou montar dieta com boa relação custo/Mcal e custo/kg de ganho.
Por que isso pesa tanto? Porque no confinamento, a nutrição domina o custo.
Quando você precisa “encurtar” o ciclo e girar caixa
Confinamento é ferramenta de:
- Acelerar abate (menos dias para terminar).
- Aumentar giro (mais lotes por ano, dependendo da estrutura).
- Padronizar carcaça e acabamento, o que ajuda em bonificação e previsibilidade.
Se o seu sistema depende de giro (e não de segurar boi esperando capim), o confinamento costuma melhorar custo/@ indireto, por reduzir “dias improdutivos”.
Quando o pasto está caro (terra cara ou capim limitado)
Confinamento pode ganhar mesmo com dieta mais alta quando:
- Terra é cara ou disputada com agricultura.
- Você tem pouco hectare e precisa aumentar produção por área.
- O capim no período seco vira gargalo (e suplementação no pasto fica quase “mini-confinamento” sem a mesma eficiência).
Quando você é muito eficiente no cocho
No confinamento, eficiência é tudo:
- Baixa mortalidade/refugo
- Cocho bem manejado (menos sobra, menos acidose, menos oscilação)
- Boa conversão alimentar
- Compra certa do boi magro (não adianta dieta boa com reposição cara demais)
Pasto: quando ele “ganha” em custo/@?
Pasto tende a vencer quando você consegue produzir arroba com capim barato, bem manejado e com ganho consistente, principalmente usando intensificação com controle (não precisa ser “pasto de luxo”, mas precisa ser capim bem manejado).
Quando o capim é barato e bem aproveitado
O pasto “ganha” quando você:
- Tem boa oferta de forragem e ajusta lotação.
- Evita desperdício e mantém o capim no ponto (altura/entrada/saída no rotacionado).
- Usa adubação e correção onde faz sentido econômico.
Quando você domina manejo (porque errar no pasto custa caro)
Muita gente compara confinamento “bem feito” com pasto “largado”. Aí fica injusto.
Erro de manejo no pasto pode custar de centenas a milhares de reais por hectare/ano, dependendo do nível de intensificação — e isso muda totalmente o custo/@.
Tradução: pasto barato existe, mas pasto mal manejado fica caro (porque alonga ciclo, derruba ganho e estoura custo por arroba).
Quando a relação reposição/boi gordo favorece recria/engorda a pasto
Em fases em que:
- Boi magro está caro
- E o boi gordo não acompanha na mesma proporção
…o pasto costuma ser o “freio de custo”, porque você segura o animal com menor desembolso diário, ganha peso de forma mais lenta (porém mais barata) e escolhe o melhor momento de terminar (inclusive com semi-confinamento).
Quando você intensifica e aumenta kg/ha/ano
Pasto intensivo (bem feito) muda o jogo por produção por área.
A comparação certa: não é “confinamento vs pasto” — é “estratégia por fase”
Na prática, os sistemas mais fortes misturam:
- Cria e recria a pasto (capim é o “insumo base”)
- Recria intensificada (suplemento estratégico, ajuste de lotação, capim bem manejado)
- Terminação com a ferramenta que estiver mais barata por @:
- Pasto (águas)
- Semi-confinamento (seca)
- Confinamento (quando dieta/eficiência/mercado permitem)
O “placar” rápido: quando cada um vence
Confinamento tende a vencer quando…
- Grão/subprodutos estão competitivos e você compra bem a dieta.
- Você tem estrutura e escala (dilui custo fixo).
- Precisa encurtar ciclo e padronizar carcaça.
- Seu pasto no seco é gargalo (ou terra é cara).
- Você é eficiente no cocho (conversão, sanidade, rotina).
Pasto tende a vencer quando…
- Capim está barato e bem manejado (lotação ajustada, capim no ponto).
- A reposição está cara e você precisa baixo custo diário.
- Você consegue intensificar e elevar produção/ha/ano.
- Você tem área e consegue usar a sazonalidade (águas para ganhar barato).
Como calcular de um jeito simples (sem planilha complexa)
Passo 1: calcule as arrobas produzidas no período
Você pode estimar @ de carcaça por:
- Arrobas = (peso vivo × rendimento de carcaça) ÷ 15
Ex.: se o animal sai com 500 kg e rendimento 52,5%:
- Carcaça = 500 × 0,525 = 262,5 kg
- Arrobas = 262,5 ÷ 15 = 17,5 @
Passo 2: some custos do período (animal + operacional)
No confinamento, detalhe bem:
- Boi magro
- Dieta total consumida
- Volumoso
- Núcleo/medicação
- Mão de obra
- Perdas (sobra, mofo, erro de trato)
- Depreciação e manutenção
Lembre: alimentação costuma ser a maior fatia do operacional (70–80% sem o custo do animal).
No pasto, detalhe bem:
- Custo/hectare (formação/reforma, adubação, correção, cerca, água)
- Suplementação
- Mão de obra
- Sanidade
- Custo de oportunidade da terra (se fizer sentido para sua realidade)
Passo 3: divida tudo pelas arrobas produzidas
- Custo/@ = custo total ÷ arrobas produzidas
E pronto: você tem um número comparável.
Onde a maioria erra na comparação (e perde dinheiro)
- Comparar confinamento “bem feito” com pasto “largado” (ou o contrário).
- Ignorar custo da terra (pasto pode parecer “barato” só porque você não coloca o hectare na conta).
- Esquecer perdas (cocho e volumoso mal manejado sangram resultado).
- Não medir ganho (GMD no pasto e no cocho). Sem ganho, custo/@ vira chute.
- Errar manejo de pasto achando que é detalhe — e pode custar caro por hectare/ano, principalmente em sistemas intensivos.
Estratégias vencedoras em 2026: como usar os dois a seu favor
Estratégia 1: pasto nas águas + terminar no cocho
- Pasto barato quando o capim explode.
- Confinamento entra para padronizar acabamento e encurtar reta final.
Estratégia 2: recria intensiva a pasto + semi-confinamento na seca
- Mantém custo diário controlado.
- Evita “estourar” dieta total de confinamento, mas segura desempenho.
Estratégia 3: confinamento estratégico só quando a conta fecha
- Você usa a estrutura quando a dieta está boa, o boi magro entra certo e o boi gordo paga a operação (spot/termo/B3).
Perguntas frequentes (FAQ)
Confinamento sempre é mais caro que pasto?
Não necessariamente. Se a dieta estiver competitiva e você tiver eficiência/escala, o confinamento pode produzir arroba com custo competitivo — e ainda reduzir tempo e padronizar carcaça.
Pasto é sempre mais barato?
Também não. Pasto mal manejado alonga ciclo, derruba ganho e aumenta custo/@. E o erro de manejo pode custar caro por hectare/ano, principalmente em sistemas intensivos.
Qual é o item que mais pesa no confinamento?
A alimentação. Sem considerar o custo do animal, a alimentação pode representar algo como 70% a 80% dos gastos.
Como eu comparo “justo” os dois sistemas?
Comparando custo total ÷ arrobas produzidas, usando a mesma lógica de arrobas (carcaça ÷ 15 kg) e colocando na conta os custos relevantes (inclusive perdas e, se fizer sentido, custo da terra).
O melhor sistema é escolher um só?
Na maioria dos casos, não. Os sistemas mais resilientes combinam fases: capim como base e cocho como ferramenta, usando o que estiver melhor por arroba no momento.
Fechando a conta: a regra mais honesta
Confinamento ganha quando você compra dieta bem, tem eficiência e precisa de giro/padronização (e o pasto é gargalo ou caro).
Pasto ganha quando capim está barato e bem manejado, você domina lotação e mantém ganho consistente (principalmente nas águas).
Se você quiser transformar isso numa decisão “sem achismo”, o caminho é simples: meça ganho, estime arrobas produzidas e apure custo total por fase. Aí o melhor sistema aparece sozinho.
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