A espiga “feia” no milho quase nunca é azar. Na maioria das vezes, ela é o resultado de decisões (ou estresses) que começaram bem antes do enchimento de grãos — e um dos períodos mais críticos é justamente entre V4 e V6. Nessa fase, a planta está construindo o “projeto” do que será a espiga: definindo potencial de fileiras, número de óvulos, arquitetura do colmo e capacidade de sustentar uma alta demanda lá na frente.
E aqui está o ponto que muita gente subestima: quando você vê a espiga mal formada na colheita, você está olhando para uma história que começou semanas antes. Por isso, entender o que acontece em V4–V6 e quais erros são mais comuns nessa janela te dá poder de corrigir a rota a tempo — e evitar perdas de produtividade que podem ser grandes, mesmo quando a lavoura “parece bonita” de longe.
A seguir, vamos direto ao que importa: os 7 erros mais frequentes que começam em V4–V6 e terminam em espiga mal formada, com sinais no campo e o que fazer para prevenir.
Por que V4–V6 é tão decisivo para a espiga?
Entre V4 e V6, o milho entra numa fase de crescimento acelerado do sistema radicular e da parte aérea. A planta passa a definir melhor:
- Potencial de número de fileiras e organização inicial da espiga (a base do “tamanho” que ela pode ter).
- Capacidade de absorção (raízes explorando o perfil, pegando água e nutrientes).
- Vigor e uniformidade, que vão definir sincronia de florescimento mais adiante.
- Resiliência ao estresse, porque erros agora aumentam o risco de falhas na polinização e aborto de grãos depois.
É por isso que V4–V6 é uma fase onde qualquer estresse (nutricional, hídrico, químico, mecânico, térmico) “carimba” o potencial da espiga.
Como reconhecer “espiga mal formada” (e o que ela costuma indicar)
Antes de falar dos erros, vale alinhar o diagnóstico. Espiga mal formada pode aparecer como:
- Espiga curta (menos grãos por fileira).
- Falhas de granação (buracos, “dentes”).
- Ponta chocha (tip-back: grãos não enchem no final).
- Fileiras irregulares ou “tortas”.
- Polinização falha (muito grão abortado).
- Espigas de tamanhos muito diferentes dentro da mesma área.
Esses sintomas podem ter causas em fases diferentes, mas muita coisa começa a ser construída (ou destruída) em V4–V6.
1) Desuniformidade de emergência e estande “irregular” (o erro nº 1)
Pode anotar: lavoura desuniforme é espiga desuniforme. E o problema é que, mesmo que a diferença pareça pequena no começo, ela vira um abismo lá na frente.
O que acontece em V4–V6
Quando algumas plantas estão em V6 e outras em V4 no mesmo talhão, as mais adiantadas “mandam” no ambiente: sombreiam, dominam água e nutrientes e viram plantas dominantes. As atrasadas se tornam dominadas, com espigas menores e, muitas vezes, com falhas de granação.
Sinais no campo
- Ondas de tamanho nas linhas.
- Plantas finas, com entrenós curtos e folhas menores.
- Espigas pequenas em plantas atrasadas (às vezes com ponta chocha e baixa massa de grãos).
Como prevenir (na prática)
- Semente de alta qualidade e com vigor real (não só germinação no papel).
- Plantio em condição certa de umidade: evitar “pó” ou barro que sela sulco.
- Profundidade uniforme e bom fechamento de sulco.
- Distribuição ajustada (vácuo/pressão, disco, velocidade).
- Palhada bem manejada para evitar “hairpinning” (palha dentro do sulco) e emergência irregular.
Uma lavoura com emergência em “duas etapas” pode perder produtividade sem parecer ruim até o pendoamento.
2) Falta de nitrogênio “na hora errada” (e a ilusão do milho verde)
Muita gente associa N com fases mais tardias, mas o milho precisa estar bem servido de N já no início para construir estrutura e potencial.
O que acontece em V4–V6
A planta acelera crescimento e demanda N para:
- Formar área foliar (fábrica de energia).
- Aumentar capacidade fotossintética.
- Sustentar raiz ativa e colmo vigoroso.
Deficiência de N nessa fase derruba vigor, reduz área foliar e cria plantas mais sensíveis a estresse. Isso não só reduz potencial, como aumenta risco de abortamento lá na frente.
Sinais no campo
- Clorose em “V” invertido nas folhas mais velhas.
- Crescimento travado, plantas “finas”.
- Diferença de cor em faixas (erro de distribuição ou aplicação).
Como corrigir e prevenir
- Planejar N pela curva de demanda: uma parte no plantio e outra em cobertura antes do estresse.
- Ajustar fonte e estratégia conforme clima e solo:
- Ureia com proteção/inibidor quando risco de volatilização é alto.
- Janela de chuva para incorporar e reduzir perdas.
- Parcelamento em solos leves.
- Se a deficiência aparece em V4–V6, cobertura rápida geralmente paga.
3) Fósforo baixo e raiz “curta”: você perde espiga sem perceber
Fósforo não é só “arranque”. Ele é o nutriente que mais influencia raiz e energia (ATP). E em V4–V6 raiz é tudo.
O que acontece em V4–V6
Com P baixo (ou indisponível por frio, compactação, pH inadequado), a planta:
- Forma raiz superficial e menos ramificada.
- Reduz absorção geral (porque a raiz não explora).
- Fica vulnerável a veranicos.
- Perde uniformidade.
A consequência lá na frente é espiga menor e maior risco de falhas de granação, principalmente se vier estresse hídrico no florescimento.
Sinais no campo
- Plantas arroxeadas (nem sempre aparece, mas quando aparece é forte indício).
- Raiz curta, com poucas radicelas.
- Desenvolvimento irregular em áreas com histórico de P baixo.
Como prevenir
- Calagem e pH ajustado para melhorar disponibilidade.
- Fósforo bem posicionado (linha) quando solo é muito fixador.
- Mapa por talhão: P muito baixo precisa estratégia contínua, não “milagre” em uma safra.
4) Compactação e encharcamento: raiz sufoca, espiga paga a conta
É comum a lavoura “até ficar bonita” por cima, mas por baixo estar travada.
O que acontece em V4–V6
Compactação e encharcamento fazem:
- Redução de oxigênio no solo.
- Raiz curta e “torta”.
- Menor absorção de N, K, S e micronutrientes.
- Maior predisposição a acamamento depois.
Além disso, em solo compactado, qualquer veranico vira estresse rápido, e o milho responde abortando parte do potencial de grãos.
Sinais no campo
- Raiz em “J” ou “prato”.
- Crescimento lento após chuvas.
- Diferença de vigor seguindo trilhas de máquinas.
- Manchas com espigas menores e colmo mais fraco.
Como prevenir
- Evitar operação fora do ponto e reduzir tráfego desnecessário.
- Descompactar com critério (diagnóstico antes).
- Palhada e matéria orgânica para melhorar estrutura do solo.
- Drenagem em áreas com encharcamento recorrente.
5) Erro em herbicida (ou mistura): fitotoxicidade que rouba potencial
V4–V6 é uma fase em que o milho é mais sensível a alguns ingredientes ativos, doses, adjuvantes e misturas — especialmente quando o clima está estressante.
O que acontece em V4–V6
Fitotoxicidade reduz:
- Área foliar.
- Fotossíntese.
- Crescimento de raiz.
- Uniformidade (atraso vira dominância).
Mesmo quando a planta “recupera” visualmente, o potencial de espiga pode já ter sido reduzido.
Sinais no campo
- Folhas encarquilhadas, clorose, “queima”.
- Planta travada 5–10 dias após aplicação.
- Sintomas em reboleiras (sobreposição) ou em bordas.
Como evitar
- Respeitar estádio de aplicação (V4, V5, V6 muda muita coisa).
- Cuidado com clima: temperatura alta, vento seco, amplitude térmica.
- Evitar “coquetel” sem necessidade.
- Calibrar pulverizador para reduzir sobreposição e variação de dose.
- Se houver dúvida, priorizar janela mais segura e controle correto antes da competição aumentar.
6) Competição com daninhas cedo: o prejuízo começa antes de você ver
O milho não pode “brigar” no começo. A competição por luz, água e nutrientes em V4–V6 é um dos caminhos mais rápidos para reduzir espiga.
O que acontece em V4–V6
Daninhas competem por:
- Luz (sombreamento parcial já atrapalha).
- Água (veranico com daninha é mais duro).
- Nutrientes (principalmente N e K).
O resultado é redução do crescimento, menor diâmetro de colmo, menor área foliar e maior risco de falhas na formação e no enchimento de grãos.
Sinais no campo
- Faixas com milho mais fraco onde o controle atrasou.
- Daninhas dominando entrelinhas.
- Cor mais pálida e menor porte do milho.
Como prevenir
- Manter limpo cedo no período crítico de prevenção da interferência.
- Ajustar pré e pós no timing certo.
- Manejo integrado: rotação, cobertura e redução do banco de sementes.
7) População e espaçamento errados para o ambiente (ou híbrido): você força a espiga
Milho não é receita única. A população que dá certo num talhão pode ser excesso em outro, e isso aparece depois como espiga menor, ponta chocha e plantas dominadas.
O que acontece em V4–V6
Quando a população é alta demais para a água e os nutrientes do ambiente:
- Aumenta competição entre plantas.
- Cresce a desuniformidade.
- Reduz o diâmetro de colmo.
- Eleva o estresse hídrico e nutricional.
O milho “decide” cedo limitar potencial, e depois no enchimento vem o clássico: tip-back (ponta chocha) e abortamento.
Sinais no campo
- Plantas mais finas e altas.
- Maior variabilidade de tamanho entre plantas.
- Espiga curta e ponta sem grão em áreas mais fracas.
Como acertar
- Ajustar população por ambiente (talhão forte x fraco).
- Considerar o híbrido (arquitetura, tolerância a adensamento, sanidade).
- Taxa variável em áreas muito heterogêneas, quando possível.
- Revisar distribuição para evitar plantas “duplas” e falhas.
Checklist rápido de V4–V6 para não pagar caro na colheita
Se você quiser uma rotina simples e eficiente para V4–V6, use este checklist:
- Uniformidade: todas as plantas no mesmo estádio? tem falhas/dobras?
- Cor e vigor: verde uniforme ou tem clorose/faixas?
- Raiz: arranque algumas plantas — raiz está profunda, branca, com radicelas?
- Solo: tem compactação, “pé de grade”, encharcamento?
- Daninhas: área está limpa no período crítico?
- Pulverização: teve fitotoxicidade? mistura agressiva? sobreposição?
- Cobertura: N está chegando antes do estresse?
“Tá, mas e quando a espiga já veio mal formada?”
Se você já está com espiga mal formada no talhão, ainda dá para aprender muito para a próxima safra:
- Mapeie onde o problema aconteceu (reboleiras, faixas, topo/baixada, trilhas).
- Cruze com histórico: chuva, operação, herbicida, compactação, variedade.
- Abra plantas e raiz: procure padrão (raiz curta, colmo fino, dominância).
- Feche o diagnóstico por causa provável (na maioria das vezes não é um motivo só).
O grande ganho é transformar uma frustração em um ajuste objetivo: timing de N, manejo de daninhas, herbicida mais seguro, correção de solo, população por ambiente e plantio mais uniforme.
Conclusão: a espiga é uma “conta” que começa a ser feita cedo
Milho produtivo não é só “jogar adubo e torcer”. A espiga é construída com antecedência — e V4–V6 é uma janela onde a planta define muita coisa do potencial. Se você protege essa fase de desuniformidade, competição, falta de nutrientes e estresses evitáveis, o milho chega no florescimento com força, sincronia e capacidade de encher grãos.
E a melhor parte: muitos desses erros são corrigíveis com manejo simples, desde que você olhe para V4–V6 com o peso que ele merece.
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