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Se você já abriu um boletim da Conab e pensou “ok… e o que eu faço com isso?”, este guia é pra você.
A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) publica levantamentos e boletins que viram referência para decisão de plantio, compra de insumos, venda (com ou sem trava), gestão de armazenagem, fluxo de caixa e até negociação de frete.
O segredo não é “ler tudo”, e sim criar uma rotina curta: olhar os indicadores certos, na data certa, e transformar em decisão.
A seguir, você vai ver um calendário prático (com as principais datas do ano) e um passo a passo para usar esses levantamentos como um “GPS” da safra.
O que a Conab publica (e por que isso mexe com o seu bolso)?
A Conab tem três blocos de informação que, juntos, formam o painel do produtor:
- Safras (grãos e fibras): acompanhamento mensal do ciclo (plantio → desenvolvimento → colheita → consolidação de área, produtividade e produção).
- Café e cana-de-açúcar: levantamentos com periodicidade quadrimestral (ao longo do ano, com revisões importantes).
- Mercado hortigranjeiro (Prohort): boletins mensais com preços e volumes comercializados em atacados (Ceasas), além de dados ligados a exportação.
E tem ainda um material que muita gente subestima (mas dá vantagem competitiva):
- Boletim de Monitoramento Agrícola (BMA): leitura agrometeorológica + imagens/satélites e condição das lavouras (parcerias técnicas e monitoramento de campo/clima).
O “pulo do gato”: boletim não é notícia — é gatilho de decisão
Pense assim: cada levantamento é uma atualização do cenário. Você não precisa acertar o mercado; precisa reduzir risco.
Use os boletins para responder 5 perguntas, sempre:
- Oferta: vai ter mais ou menos produto? (área + produtividade + produção)
- Timing: o ciclo está adiantado ou atrasado? (plantio/colheita/condição)
- Preço provável: o mercado tende a apertar ou folgar? (tendência de oferta, exportação, estoques, consumo)
- Logística: vai travar escoamento? (safra grande, colheita concentrada, frete)
- Ação: o que eu faço agora? (comprar insumo, vender lote, travar, segurar, armazenar)
Calendário do produtor: o que colocar na agenda?
A Conab divulga um calendário anual com datas de publicação dos levantamentos.
No geral, grãos e fibras seguem uma lógica de atualizações frequentes (ao longo do ciclo), enquanto café e cana tendem a concentrar revisões em janelas estratégicas do ano. O Prohort entra como rotina mensal para quem trabalha com hortifruti e atacado.
Dica rápida: datas podem mudar. Use o calendário oficial da Conab como referência anual e mantenha uma rotina de checagem mensal.
Tabela rápida: qual boletim usar para cada decisão?
| Sua decisão no campo/na gestão | O que ler primeiro | O que “caçar” no documento |
|---|---|---|
| Definir área (soja/milho/trigo/feijão/algodão etc.) | Safra de grãos (levantamentos) | Área, produtividade, produção, ritmo de plantio/colheita |
| Decidir hora de vender (lotes) | Safra de grãos + leitura de mercado | Tendência de produção, concentração de colheita, oferta vs demanda |
| Planejar armazenagem | Safra de grãos | Tamanho da safra + janela de colheita + gargalos |
| Ajustar manejo por clima | BMA | Condição das lavouras, chuva/temperatura, estresse, atrasos |
| Café: calibrar expectativa e fluxo | Levantamento do café | Revisões de produção por região + impacto no mercado |
| Cana: planejamento industrial/comercial | Levantamento da cana | Produção e produtividade (sinais para oferta/indústria) |
| Hortifruti: compra e precificação | Prohort | Preços e volumes nas Ceasas, comportamento do atacado |
Como ler um levantamento em 10 minutos? (sem se perder)
Abra o boletim e siga esta ordem (é a forma mais rápida de extrair “ação”):
- 1) Resumo executivo (ou destaques): entender o que mudou desde o último levantamento.
- 2) Produção total e por cultura: olhar variação (subiu/baixou) e o porquê (área ou produtividade).
- 3) Mapa/UFs (onde realmente mexeu): priorizar sua região e as regiões que “puxam preço”.
- 4) Andamento de plantio/colheita: atraso/adiantamento → mexe com janela de oferta e frete.
- 5) Mercado (quando houver no conjunto): exportação, consumo, estoques e pressão logística.
Checklist do produtor:
- Mudou o quê?
- Mudou por quê?
- Isso mexe com minha oferta, meu timing e meu caixa?
- Qual decisão eu tomo até o próximo boletim?
Rotina mensal que funciona: “1 hora por mês” para ficar na frente
Você não precisa virar analista — só precisa de processo.
Semana do levantamento (janela de 24–72h)
- Ação 1 — Atualize seu “mapa de safra” (uma planilha simples): área planejada vs realizada, produtividade esperada (piso/base/teto), produção estimada, custo/ha e custo/saca.
- Ação 2 — Recalcule seu preço-alvo: preço-alvo mínimo (custo + margem) e preço-alvo de oportunidade (para travas parciais).
- Ação 3 — Decida um micro-passo: venda/trava de 5% a 15% (se fizer sentido), compra de insumo (antecipar/segurar) e ajuste de frete/armazenagem.
Entre levantamentos
- Ação 4 — Use o BMA como “termômetro”: se o clima sinaliza estresse em regiões-chave, ajuste seu risco e seu plano de venda.
Ao longo do ano: como usar os boletins por fase da safra?
A lógica mais eficiente é usar cada fase do ciclo com um foco.
1) Pré-plantio e plantio
Objetivo: confirmar área e estratégia de insumos.
- O que olhar: sinal de área (crescendo ou reduzindo) e atraso/adiantamento do plantio (risco climático e janela de colheita).
- Decisões típicas: travamento parcial de insumos, ajuste de janela e tecnologia conforme risco.
2) Desenvolvimento
Objetivo: calibrar produtividade (expectativa realista).
- O que olhar: revisões de produtividade por UF/região e sinais do BMA (estresse hídrico, calor, excesso de chuva).
- Decisões típicas: ajustes de manejo e decisões iniciais de venda escalonada.
3) Colheita e pico de oferta
Objetivo: proteger preço e logística.
- O que olhar: ritmo de colheita e concentração (pressão em preço/frete) e consolidação da produção.
- Decisões típicas: armazenar vs vender (com conta na mão) e negociação antecipada de frete.
4) Pós-colheita e janela do próximo ciclo
Objetivo: planejar o próximo ano com base no que o mercado confirmou.
- O que olhar: oferta e demanda, revisões finais e aprendizado do ciclo.
- Decisões típicas: revisão de orçamento e ajustes na estratégia comercial (travas e timing).
Café e cana: como transformar levantamentos em estratégia
Café: use como “marco de revisão”
Trate cada divulgação como um checkpoint para ajustar expectativa, fluxo e estratégia de venda.
- Primeiras divulgações do ano: fotografia inicial e direção do mercado.
- Divulgações intermediárias: revisão com dados mais firmes de campo.
- Divulgações finais: consolidação e lições para o próximo ciclo.
Cana: planejamento e ajuste ao longo do ciclo
Use os levantamentos para alinhar planejamento industrial/comercial, e para ajustar decisões de produtividade e oferta ao longo do ano.
Hortifruti (Prohort): o atalho para entender preço no atacado
O Prohort é sua rotina mensal para enxergar preço e volume em atacados (Ceasas) e entender tendência de curto prazo.
- Se você produz: compare o preço recebido com o atacado para negociar melhor e escolher canais.
- Se você compra/revende: use volume + preço para antecipar picos e quedas.
- Se você planeja escalonar: cruze os boletins com seu calendário local para fugir de colheita concentrada.
Erros comuns que fazem o produtor “perder o timing”
- Ler boletim como notícia, e não como gatilho de decisão.
- Olhar só o número total, sem ver onde mudou (UF/região).
- Decidir “tudo de uma vez”, em vez de escalonar compra/venda.
- Ignorar o clima (o mercado reage ao risco antes da confirmação).
- Não registrar histórico próprio (sem histórico, você repete erro).
Modelo pronto: “Plano de ação pós-Conab” (copie e cole)
Depois de cada levantamento, responda isso em 5 minutos:
- Mudança principal: (ex.: produção subiu/baixou / plantio atrasou)
- Regiões que puxaram: (UFs e motivo)
- Risco nos próximos 30 dias: (clima/logística/mercado)
- Minha decisão agora: (comprar, vender, travar %, armazenar, segurar)
- Próximo gatilho: (o que eu preciso ver no próximo boletim)
Fechamento
O produtor que usa os levantamentos da Conab do jeito certo não “adivinha o preço”. Ele faz algo melhor: decide com mais dados e menos emoção, mês a mês, ajustando rota conforme o cenário muda.
E, no agro, consistência quase sempre ganha de genialidade.
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Leandro Gugisch