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Nitrogênio é, na prática, o “motor” do crescimento: empurra folha, perfilho, colmo, enchimento, brotação e recuperação pós-estresse. Só que nem todo N se comporta igual no solo. E é aí que muita adubação “boa no papel” vira perda no campo.
Quando você escolhe amônio (NH₄⁺), nitrato (NO₃⁻) ou ureia (CO(NH₂)₂), o que muda não é só o preço por kg de N. Muda:
- onde o N fica no perfil: mobilidade e “permanência” na zona de raízes
- o risco de perda: volatilização, lixiviação e desnitrificação
- a velocidade de resposta: quanto tempo leva para “aparecer” na lavoura
- o efeito no pH perto do grânulo: microambiente que favorece (ou não) perdas
- o jeito certo de aplicar: época, parcelamento, posicionamento e necessidade de água/chuva
A seguir, vamos destrinchar isso de forma bem prática, com exemplos para soja, milho, trigo, cana, café, hortifrúti e sorgo — do tipo que ajuda a decidir na fazenda.
1) Primeiro: o que é cada um (sem enrolação)
Amônio (NH₄⁺)
É o nitrogênio na forma cátion (com carga positiva). Isso muda tudo porque:
- tende a “grudar”: prende mais nas cargas negativas do solo (argila e matéria orgânica)
- menor risco de lixiviação: comparado ao nitrato, costuma “andar menos”
- pode virar nitrato: passa por nitrificação dependendo de umidade, temperatura, pH e aeração
Fontes comuns com N amoniacal:
- Sulfato de amônio: além de N, entrega enxofre (S)
- MAP/DAP: parte do N é amoniacal
- Misturas formuladas: algumas NPK trazem N amoniacal
Nitrato (NO₃⁻)
É o nitrogênio na forma ânion (carga negativa). E aí acontece o contrário:
- não “gruda” no solo: baixa retenção no complexo de troca
- é mais móvel: acompanha a água no solo
- risco maior de lixiviar: especialmente em solo arenoso e com chuva forte
Fontes comuns:
- Nitrato de amônio
- Nitrato de cálcio
- Nitrato de potássio: muito usado em fertirrigação/hortifrúti
Ureia
Ureia não é amônio nem nitrato. Ela é um composto orgânico simples que, ao cair no solo, passa por uma reação:
ureia → (enzima urease) → amônia (NH₃) / amônio (NH₄⁺)
Ou seja: ureia vira amônio depois de um tempo, mas nesse “meio do caminho” é onde mora o maior risco de perda por volatilização de amônia.
2) O que muda na prática: as três grandes perdas de N
Se você entender essas três perdas, você nunca mais olha fonte de N só pelo preço.
2.1 Volatilização (principalmente com ureia)
O que é: perda de N na forma de amônia gasosa (NH₃) para a atmosfera.
Quando acontece mais:
- ureia na superfície: sem incorporação
- solo úmido + sol + vento: pior em dias quentes
- palhada na superfície: urease alta na palha
- pH alto na microzona: ureia aumenta pH perto do grânulo na hidrólise
Sinais práticos:
- sem “verde”: aplicou e não choveu/irrigou, a resposta não vem
- cheiro de amônia: especialmente em pastagens e dias quentes
Como reduzir:
- água logo após: chuva/irrigação que leve o N para dentro do solo
- incorporar: quando o sistema permitir
- inibidor de urease: NBPT e similares
- evitar janela ruim: calor, vento, solo úmido superficial sem previsão de chuva
2.2 Lixiviação (principalmente com nitrato)
O que é: o N desce no perfil com a água, saindo da zona de raízes.
Quando acontece mais:
- nitrato disponível: NO₃⁻ é móvel; e amônio pode virar nitrato
- chuva forte após aplicação
- solo arenoso/baixa CTC
- doses altas de uma vez: sem parcelar
Como reduzir:
- parcelar: especialmente milho, trigo, cana e hortifrúti
- manejo para “segurar” N: parte amoniacal e estratégia de época
- inibidor de nitrificação: DCD, DMPP, nitrapyrin (dependendo do produto)
- dose realista: ajustar à meta de produtividade e ambiente
2.3 Desnitrificação (nitrato virando gás em solo encharcado)
O que é: em falta de oxigênio (solo encharcado/compactado), microrganismos usam nitrato e liberam gases (N₂ e N₂O). Você perde N e ainda aumenta emissão de N₂O.
Quando acontece mais:
- encharcamento
- compactação/baixa aeração
- períodos chuvosos em solos pesados
- muito nitrato disponível
Como reduzir:
- drenagem e estrutura: corrigir compactação e manejo de tráfego
- evitar dose alta antes de chuvas: nas áreas “problemáticas”
- parcelamento: diminui a “aposta” em uma aplicação só
3) Velocidade de resposta da cultura: quem “age” mais rápido?
- Nitrato: tende a dar resposta mais imediata, por estar prontamente disponível e ser móvel até a raiz
- Amônio: é absorvido, mas tende a ficar mais perto do ponto de aplicação
- Ureia: precisa virar amônio primeiro; se o ambiente estiver ruim, o risco de perda aumenta
Na prática:
- Resposta rápida + manejo de água: nitratos são comuns em hortifrúti e fertirrigação
- Menos mobilidade: parte amoniacal pode ser vantagem
- Custo competitivo: ureia geralmente ganha, mas só vale com manejo anti-volatilização
4) Efeito no solo e na raiz: acidifica? alcaliniza?
- Ureia: na hidrólise, aumenta pH na microzona do grânulo, favorecendo volatilização se ficar na superfície
- Amônio: ao nitrificar, tende a acidificar o solo ao longo do tempo
- Nitrato: o efeito depende da fonte (ex.: nitrato de cálcio tende a ser “menos acidificante” no sistema, mas não substitui calagem)
Moral: não existe fonte “neutra” em todas as situações. Existe manejo e planejamento de correção do solo.
5) Onde cada fonte costuma brilhar (e onde costuma dar ruim)
5.1 Ureia: campeã de custo, campeã de risco se mal aplicada
Vantagens:
- custo por kg de N: geralmente mais baixo
- alta concentração: 46% N (logística facilita)
- versatilidade: cobertura, misturas, aplicação a lanço
Riscos:
- volatilização: quando superficial e sem chuva/irrigação
- palhada: aumenta o risco se ficar “em cima”
Boas práticas:
- janela de chuva real: chuva leve/moderada em até 24–48h
- inibidor de urease: quando a chuva é incerta
- parcelamento: melhora eficiência (milho e trigo principalmente)
- calibração: distribuição ruim vira faixa verde e faixa amarela
5.2 Amônio (ex.: sulfato de amônio): estabilidade maior e bônus de enxofre
Vantagens:
- menor lixiviação imediata: NH₄⁺ tende a ser mais retido
- entrega enxofre: quando é sulfato de amônio
- volatilização geralmente menor: que ureia superficial (não é zero)
Riscos:
- acidificação no longo prazo: nitrificação do amônio
- nitrificação rápida em certos ambientes: pode virar nitrato e ficar móvel
Boas práticas:
- usar quando o sistema pede S: especialmente em áreas com deficiência
- planejar calagem: para equilibrar o efeito acidificante
- parcelar quando possível
5.3 Nitratos: resposta rápida, mas a água manda (e o risco de descer é real)
Vantagens:
- resposta rápida
- ótimos em fertirrigação
- podem trazer Ca/K: dependendo da fonte
Riscos:
- lixiviação: em arenoso + chuva
- desnitrificação: em encharcamento
Boas práticas:
- controle de água: irrigação/fertirrigação
- fracionar doses
- cautela em baixa CTC
6) O que muda por cultura (exemplos práticos)
Milho (alta demanda de N)
Milho é o clássico onde fonte e manejo de N “aparecem” na produtividade.
O que costuma funcionar bem:
- base + cobertura parcelada: V4–V6 e, se necessário, V8–V10
- ureia com chuva/irrigação: ou com inibidor de urease
- parte amoniacal quando S é limitante: sulfato de amônio ajuda
Erros comuns:
- tudo de uma vez antes de chuvarada
- ureia na palhada sem chuva
Trigo (perfilhamento e enchimento)
Trigo responde muito a N, mas é sensível a excesso em hora errada (acamamento, doença, proteína x produtividade).
- parcelar N: parte no perfilhamento e parte antes do alongamento
- alinhar com meta de proteína: especialmente em trigo pão
Cana (sistema perene e janela de aplicação)
- ureia na palhada: risco alto se não chover logo
- amônio + S: interessante quando enxofre está baixo
- janela de chuva: costuma ser a regra de ouro pela logística
Café (perene, raiz ativa, parcelamento é rei)
- parcelar quase sempre ganha: ainda mais com irrigação
- fertirrigação: nitratos e fontes solúveis entram forte
- acompanhar calagem: N amoniacal pode acelerar acidificação
Hortifrúti (alta exigência e fertirrigação)
- nitratos aparecem com força: resposta rápida e controle fino
- cuidado a campo sem irrigação: nitrato sem fracionar pode “sumir” com chuva
Sorgo (rústico, mas responde)
- manejo parecido com milho: ajustando dose e objetivo
- palhada + ureia: atenção redobrada sem chuva
Soja (exceção: foco em inoculação)
Soja, via regra, fixa N (FBN) e não “pede” N mineral pesado. O essencial é:
- inoculação bem feita
- ambiente para nodulação: pH, Mo, Co e menos estresse
- cuidado com excesso de N mineral: pode reduzir fixação
7) Como escolher a fonte: um “mapa mental” rápido
Qual é o maior risco hoje?
- Volatilização (calor, palhada, sem chuva): ureia só com chuva garantida ou inibidor; considerar parte amoniacal
- Lixiviação (arenoso + chuva): parcelar e evitar dose única grande; considerar inibidor de nitrificação
- Encharcamento/compactação: melhorar drenagem/estrutura; evitar muito nitrato em janela chuvosa
8) Inibidores: quando valem o dinheiro?
Inibidor de urease (para ureia)
- serve para: reduzir volatilização e ganhar tempo até chover
- vale quando: chuva incerta, palhada, calor e logística apertada
Inibidor de nitrificação
- serve para: retardar amônio → nitrato, reduzindo lixiviação/desnitrificação
- vale quando: arenoso + chuvas frequentes e doses maiores por aplicação
Atenção: não é mágica. Manejo ruim continua dando perda.
9) Perguntas que todo produtor faz (e respostas diretas)
“Ureia é ruim então?”
Não. Ureia é ótima quando bem manejada. Ela vira problema quando aplicada na superfície e sem chuva/incorporação.
“Nitrato é sempre melhor porque é mais rápido?”
É mais rápido, mas pode ser mais perdível em ambiente de chuva e solo leve. Em fertirrigação, costuma ser excelente.
“Sulfato de amônio resolve tudo?”
Ajuda muito quando há demanda por enxofre e quando você quer reduzir o risco de volatilização. Mas exige atenção ao pH no longo prazo.
“Posso misturar ureia com tudo?”
Cuidado. Algumas misturas empedram e o principal continua sendo: choveu ou não choveu depois?
10) Checklist de aplicação (o que realmente faz diferença no talhão)
Antes de aplicar N, responda:
- vai chover de verdade em 24–48h?
- vai fazer calor e vento com solo úmido superficial? (volatilização sobe)
- seu solo é arenoso e vem chuva forte? (lixiviação sobe)
- há risco de encharcamento/compactação? (desnitrificação sobe)
- dá para parcelar? (eficiência quase sempre melhora)
- tem palhada pesada? (ureia superficial exige cuidado)
- enxofre está baixo? (sulfato de amônio pode encaixar muito bem)
- equipamento calibrado? (distribuição ruim derruba resultado)
11) Resumo final: “o que muda na prática” em uma frase pra cada
- Ureia: barata e eficiente se você dominar chuva/incorporação ou usar inibidor; senão, volatiliza e dói no bolso.
- Amônio: segura mais perto do ponto de aplicação e pode trazer bônus de enxofre (dependendo da fonte), mas pede atenção ao pH e à nitrificação.
- Nitrato: resposta rápida e ótimo em fertirrigação, porém com maior risco de “descer” com chuva e de virar gás em solo encharcado.
Se você alinhar fonte + época + posicionamento + água (e, quando necessário, inibidores), o nitrogênio deixa de ser “custo inevitável” e vira investimento com retorno.
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